mais cachorro-quente

A Fê, de 6 anos, gostou da festa e quis desenhar. Será que ela também vai ser ilustradora? Ou melhor, já é!

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Festa de cachorro-quente

No aniversário de dez anos do Vitor, a mãe falou que ia ter festa de cachorro-quente e o Vitor adorou, porque ele adora cachorro-quente.

A mãe caprichou, fez um montão, um molho bem gostoso e, na hora de servir, serviu bem arrumadinho, cada cachorro-quente num prato, pra não ter lambança.

Tinha criança à beça na festa e quando as bandejas foram chegando na mesa com os cachorros-quentes, a criançada foi logo correndo pra pegar um. O Vitor foi o primeiro a dar uma mordida, mas levou azar e acabou só com pão na boca, porque a salsicha escapuliu e caiu no prato.

O estranho foi que ela caiu em pé. O Vitor olhou espantado e se espantou mais ainda, porque viu que a salsicha tinha cara de cachorro! O mesmo foi acontecendo com todas as crianças. Toda festa tinha sempre uma criança que deixava a salsicha cair, mas dessa vez não sobrou uma dentro de pão. Ninguém conseguiu morder salsicha e foram todas caindo em pé, espalhadas pela mesa.

Estava todo mundo olhando a mesa cheia de salsichas em pé, quando aquelas carinhas de cachorro gritaram juntas: “Festa de cachorro-quente!!”. Aí pegaram as forminhas dos brigadeiros pra servir de chapéu e saíram dançando. Como salsicha não tem pernas, a dança delas era pulando, então foi um pula pula danado!

Já dá pra imaginar que as crianças se animaram com essa dança de salsicha e quiseram imitar. Rapidinho a sala parecia mais uma pipoqueira! A confusão ficou pior quando uma das salsichas pulou na beira de um prato e o prato virou, lançando molho de cachorro-quente no ar. As salsichas acharam que isso era engraçado e começaram todas a fazer a mesma coisa, num festival de molho voando pra todo lado!

Pra falar a verdade, as crianças também acharam engraçadíssimo, mas já os pais… A mãe do Vitor ficou desesperada com aquela bagunça e gritou: “Parem agora com isso, se não vou fazer picadinho de salsicha, pra fazer render!!”

As salsichas sentiram que a coisa era séria e pararam. As crianças pararam também, porque estavam bem cansadas. E com fome…

Mas claro que elas não comeram cachorro-quente. O jeito foi comer bolo e brigadeiro. Bom, o que sobrou, porque aquela festa toda tinha dado muita fome nas salsichas.

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Sobre a ilustradora: Thereza Rowe é autora e ilustradora de Hearts (Toon Books).

Obs. Mais uma história da série “Ilustrando a ilustração”: a Thereza me mandou a ilustração e, a partir dela, criei a história.

como se faz um livro?

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Recebi umas cartas de crianças que trabalharam com O Risco e o Fio (Escola Municipal Julia Lopes de Almeida, professora Ana Carolina Cozendey) e algumas perguntaram sobre a criação do livro. O Enryco ainda ilustrou a pergunta com o desenho acima, que eu interpretei como sendo ele escrevendo a carta e imaginando a autora escrevendo o livro. Outra interpretação seria que a própria autora está escrevendo o que está vindo lá das ideias. Seja como for, o desenho retrata esse mundo da imaginação (que nenhuma fotografia poderia registrar!) onde nascem os livros.

Uma das grandes fontes de alimento desse mundo é a curiosidade, que nos liga mais profundamente ao entorno e amplia nossa consciência. Por isso é bonito ver crianças tendo espaço para sentarem e se perguntarem sobre o que está por trás das coisas.

Como já falei um pouco sobre o nascimento de O Risco e o Fio em resposta a uma outra carta, não vou repetir agora, mas o texto pode ser visto AQUI. Vou só relembrar que o importante é não ter medo de arriscar, experimentar novas ideias e persistir atrás delas.

no nível pessoal

Existe aqui na Inglaterra um programa de rádio onde os ouvintes ligam para comentar matérias de destaque na impressa. Outro dia, uma dessas matérias era sobre as comemorações da vitória na Segunda Guerra e um veterano da aeronáutica, nos seus noventa e poucos anos, ligou para dizer que era contra a forma como as celebrações se dão, parecendo glorificar a guerra e dando a entender que matar seja um ato heróico. Aí ele contou a experiência dele: durante a guerra, seu avião foi atingido e um dos paraquedas danificado. Ele, aos 19 anos, ofereceu o paraquedas restante ao piloto, de 23 anos, que o recusou. Assim ele foi salvo. Mais para frente, ele foi capturado e colocado num trem junto a um guarda. Três mulheres em luto viajavam perto dele e ele sentiu seus olhares recriminatórios. Após algumas horas, porém, elas pegaram um pedaço de pão e o ofereceram a ele. Mulheres que antes ele tentava matar, agora ofereciam pão a ele. O guarda proibiu, então ele não recebeu o pão, mas ficou com esse gesto, para anos mais tarde concluir que a arma mais poderosa contra o inimigo é o amor, o cuidado com o ser humano.

Dando um pulo para um depoimento sobre um fato recente, vi um vídeo de uma negra, cujo pai é de Gana e a mãe alemã, onde ela fala sobre sua experiência durante a execução de um documentário sobre racismo. A abordagem dela é muito interessante: simplesmente entrar em contato com pessoas de organizações racistas, trazendo questionamentos, mas sem acusações. O que ela coloca é que, de um modo geral, os grupos criam um inimigo comum, mas que esse inimigo é imaginário, mais do que real, pois as pessoas raramente têm contato com o dito inimigo. Assim, quando se confrontaram com ela, uma negra, uma pessoa real de carne e osso, que conversa, que sorri para eles, muitos ficaram desconcertados.

Agora, num pulo ainda maior, um pulo sobre o oceano, queria chegar ao Brasil. Em um outro documentário sobre o Rio que passou por aqui, apareceu de passagem (entre muitas cenas de violência) um trecho de um vídeo que provavelmente circulou na internet, onde uma menina, imagino que convocando à população à consciência, dizia algo como: “vocês que ficam aí com seu futebolzinho, seu carnavalzinho…”.

Não consegui deixar de questionar se essa menina, tão pronta a abrir mão do “futebolzinho” e “carnavalzinho”, estaria também preparada para abrir mão de privilégios que a imagem dela de alguns segundos me fazem acreditar que ela tenha. É claro que isso foi só uma elocubração, mas acho que em época de tantas manifestações coletivas, vale o questionamento sobre o comprometimento pessoal. As manifestações e, mais ainda, o trabalho coletivo, são importantes, mas as reflexões e atitudes começam no nível pessoal.

Um grande perigo do coletivo é justamente a criação de um monstro como inimigo que deve ser atacado indiscriminadamente. Os problemas do nosso país são mesmo de dimensão monstruosa, mas encararmos isso é diferente de simplesmente atribuirmos esse problemas a uma entidade, um monstro externo a nós, o que pode ser paralisante e mesmo cômodo.

Por exemplo, devemos cobrar as responsabilidades dos políticos e governantes, mas é também importante lembrarmos que dentro dos governos há muita gente trabalhando duro, seriamente buscando soluções para nossos problemas. Assim não estagnamos numa atitude derrotista. Ainda, quando afirmamos que “político é tudo ladrão”, não podemos esquecer que políticos não são monstros alienígenas que descem em naves espaciais, mas pessoas nascidas em nossa sociedade.

Qual a nossa parte em formar pessoas melhores? Estamos dando a nossa contribuição ao mundo, dando o melhor de nós, aquilo que temos em nós para oferecer ao outro, à nossa sociedade? Estamos agindo com respeito, atenção, cuidado, nem que seja em pequenos gestos? Como o senhor nos seus 90 anos nos lembrou, nossos gestos podem ter um alcance maior do que imaginamos.

Acredito que o ódio ao Brasil não vá construir uma realidade melhor, mas, quem sabe, o amor vá. Não um amor nacionalista ao país como uma entidade abstrata que precisa ser preservada, mas como um lugar que nos construiu, com uma história, cultura, onde estão pessoas que amamos e muitas que temos que aprender a respeitar. O país como nosso principal espaço de ação. Assim não negamos quem somos, podendo enfrentar o grande desafio de direcionarmos marcas importantes da nossa cultura, como afetividade, jovialidade, espontaneidade e humor, para a construção de uma sociedade mais feliz.

Como a tarefa não é fácil, acho que a festa (futebolzinho, carnavalzinho etc), outra marca forte da nossa cultura, pode ser um momento de recarregarmos as energias positivas. E já que estamos na véspera de uma grande festa, vou torcer para que ela possa ser vivida não como escapismo ou alienação, e também não com derrotismo ou violência, mas com alegria.
E vou torcer pela seleção também!

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coautoria

Um dia, o Thomas pegou “O Risco e o Fio” dele e me perguntou: “Mãe, pode desenhar nesse livro?”. Eu respondi: “Claro!”, feliz com o efeito de contágio. E ele se empolgou mesmo com a ideia de ser coautor do livro, quis até acrescentar páginas e no final tinha que ter a foto dele. Desenhou uma caixa como a da minha foto e me pediu pra desenhar ele dentro, com a língua de fora, não me perguntem por quê.

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O menino com a lua na cabeça

Manu era bem distraído. Às vezes ele dizia que queria andar de bicicleta no parque, mas aí distraía, pegava papel, caneta e começava a desenhar. Depois ia calçar os sapatos e botava eles trocados. As meias nunca tinham o par certo, mas isso era de propósito, porque ele gostava de vestir meias diferentes.

Um dia Manu estava procurando sua meia alaranjada de marciano, pra botar com a preta estrelada, e a mãe viu e falou:

“Menino, tá no mundo da lua? A meia já tá no seu pé!”

O Manu sentou e pensou que andava mesmo no mundo da lua, viajando no espaço entre planetas, cometas, satélites, foguetes, extraterrestres e a lua mesma, redonda e luminosa. Aí, logo que ele imaginou a lua, aconteceu uma coisa muito interessante: uma luazinha pipocou pra fora da sua imaginação e ficou ali, grudadinha, bem perto da sua cabeça.

Aquilo deu uma felicidade incrível pro Manu. “Uma lua todinha pra mim! Vou poder guardar uma porção de ideias nela e assim não perco!”

Depois que ganhou essa lua, o Manu guardava mesmo muitas ideias, coisas que descobria, coisas que aprendia, coisas que inventava. E ele ficava tão animado com tantas ideias assim iluminadas, que corria pra lá e pra cá, um sorrisão no rosto, dividindo as ideias com os amigos.

O tempo foi passando, o Manu cresceu e resolveu estudar pra ser professor. Quer dizer, ele juntou bastante ideia na sua lua, pra poder dividir com os alunos. Mas, logo no primeiro dia de aula, aconteceu um problema: Manu se distraiu, deixou a lua na mesinha de cabeceira e, ao invés dela, levou o livro que estava na mesinha.

Nervoso, entrou na sala de aula e encarou os alunos. E os alunos… começaram a rir!

“O professor tá com as meias trocadas!”, um falou, enquanto a turma toda continuava rindo.

Manu olhou pras meias, olhou pros alunos, olhou pras meias, olhou pros alunos, e acabou se juntando a eles na risada. Ele achou que era mesmo divertido usar meias que divertiam!

O melhor foi que, quando Manu abriu o sorrisão, as ideias também foram se abrindo, mesmo sem a lua por perto. Então o Manu entendeu que ele podia sempre buscar as ideias na sua lua, até se o pensamento tivesse que ir bem longe.

Agora, Manu resolveu deixar a lua ali mesmo na cabeceira, pra usar também como luminária, quando ele quer ler de noite. E, sempre que precisa, ele busca lá umas ideias pras aulas. Outro dia ele deu uma aula tão boa sobre o espaço sideral, que um aluno comentou no fim: “Manu, acho que você é o melhor professor do planeta!”.

meninolua pSobre o ilustrador: Thomas Cozendey Simpson, por ele mesmo: Eu tenho quatro anos. Eu gosto de colorir e fazer desenhos sozinho; gosto de avião, de ir dentro deles e se tiver televisão; gosto do barulho das árvores com as folhas batendo; gosto de fazer coisas de papelão e tudo; gosto do gangnam style e quando eu crescer eu quero ser um ilustrador ou builder. 1725270011002003004005006007008009000000000. (E gosta de escrever números malucos no computador!)

Obs. Essa história foi criada em cima do desenho do Thomas, então, de certa forma, é o texto que ilustra a ilustração!