Agora cada um brinca do que quiser!

Eu fiquei muito feliz quando comecei a ver na internet brincadeiras diferentes surgindo em torno da leitura de O Risco e o Fio, afinal, um risco que nenhum livro gosta de correr, é o de ficar só dormindo na biblioteca de uma escola. Achei, então, que tendo as brincadeiras reunidas num lugar só, dava mais chance pra outras pessoas perceberem que esse nosso livro não tem fim, sempre podendo ser esticado um pouquinho mais pelas mãos de alguma criança ou adulto que queira tecer com riscos e fios.

Abaixo seguem pequenas descrições de algumas das atividades, com meu sincero agradecimento a todos envolvidos.

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  • Instituto de Arte Tear – Rio de Janeiro – RJ
  • Professores: Ana Carolina Cozendey, Aurélio Junho, Mônica Sica e Patrícia Freitas
  • Abril – 2012

Ao iniciarmos uma turma de artes visuais, com crianças em torno de 11 anos (em sua maioria moradores do Morro do Salgueiro), optamos por usar o livro O Risco e o Fio, sem uma real ideia de para onde ele iria nos levar, tanto na construção do grupo, quanto na abordagem dos elementos das artes visuais. O livro causou um forte impacto e, por isso, abandonamos outra atividade prevista para o dia, abrindo espaço para as crianças rabiscarem livremente em resposta à leitura. Além disso, eles decidiram escrever uma carta para a autora. (para ver a carta e a resposta, clique AQUI)

Esse primeiro contato com o livro veio a ter outros desdobramentos em encontros seguintes. A questão que ficou mais forte para o grupo foi sobre “arriscar e confiar” e aproveitamos essa percepção para propor vários jogos de cooperação, relação interpessoal e confiança no outro. Queríamos também destacar o elemento “linha”, tão presente nos riscos e fios do livro, e essas foram algumas das atividades desenvolvidas:

Usando pedaços de lã, cada um se apresentava, enquanto tramava um fio enfeitando a caixa de brincadeiras (uma caixa de sorvete, cheia de pequenos furos, onde recolhemos sugestões deles para brincadeiras).

Em seguida, entramos na questão da linha como abstração para o desenho. Trabalhamos com um pedaço de corda para que o “transformassem” em algo, cada um na sua vez, na roda. Propusemos então, desenhos com barbante no chão para que tivessem a noção concreta da linha criar um desenho, e com uma linha só. E finalizamos mostrando os desenhos de Pablo Picasso feitos com uma linha só e desafiando-os a fazer o mesmo.

A proposta seguinte foi, ainda dentro da ideia da confiança e da linha, criar um retrato do colega com uma linha só e sem olhar para o papel, um desenho cego. Eles ficaram muito incomodados com os resultados, pois a ideia de desenho realista como um bom desenho ainda é muito forte, tanto na escola, quanto no senso comum. Por isso, aproveitamos para mostrar alguns trechos do filme Os mistérios de Picasso, onde eles puderam observar e discutir o processo de criação do artista e a variedade de possibilidades que sua arte apresenta, relacionando-a com seus próprios trabalhos.

Dali pra frente, outros riscos vieram, e muitos mais virão.

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A professora de artes Valéria Campos desenvolveu um trabalho muito bonito com turmas de 3º ano, que foi documentado no jornal do colégio (nº 52, p.6), sob o título Fiando e confiando:

“a proposta foi desafiar os alunos a fiar com o colega; confiar um no outro e produzir um trabalho expressivo, no qual, juntos, cada um com sua cor, revezando-se, produziriam um fio longo e colorido sobre o papel…”, explicou a educadora. O resultado foi um sucesso: aprendizagem de arte e de vida!

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O projeto Tecendo conhecimento nas escolas públicas foi desenvolvido pela professora de arte Maricele Vilela Miguel Vannucci da Escola Municipal Amanda Carneiro Teixeira, que participa do grupo de estudos NUPEA. A segunda etapa do projeto contou com a participação de 10 escolas municipais e 2 estaduais e teve o objetivo de utilizar o conhecimento popular dentro do contexto escolar. Para isso, o tema da tecelagem foi escolhido, por fazer parte do cotidiano dos alunos.

Uma parte fundamental da experiência foi o contato com os mestres, seus saberes e fazeres. A partir daí, a prática da tecelagem foi explorada de diferentes maneiras, como teares criados artesanalmente e a utilização dos mais diversos materiais (tiras de tecido, papel colorido, cordão, folhas de coqueiro, gravetos etc).

Algumas atividades extrapolaram a noção comum de tecer, como a desenvolvida com as crianças de 3 a 7 anos: numa roda, um rolo de cordão foi jogado para cada criança e as pontas foram presas com fita crepe, formando uma trama no chão. Já as crianças de 8 a 10 anos embarcaram também na trama literária de O Risco e o Fio, que foi escaneado no programa movie maker, para melhor visualização pelos alunos. O uso do livro enriqueceu bastante o trabalho.

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A professora Milene realiza um trabalho muito dinâmico e estimulante na biblioteca da escola João Baptista Jaeger. Quando ela contou a história do encontro do Risco, o Fio e a Tecelã, ela convidou as crianças a também participarem desse encontro, com seus próprios riscos, utilizando a técnica de desenho com uma única linha. Olhem elas em ação (fotos do blog da escola):

 

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4 respostas em “Agora cada um brinca do que quiser!

  1. Na Universidade Estadual do Rio de Janeiro
    Eliane Caldas do Nascimento Oliveira
    Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social
    Psicóloga e Pesquisadora em Saúde Pública da Fiocruz
    Agosto de 2012

    Hoje escrevo minha tese com o título provisório de “Para um cuidado plural através da atenção à gestante com HIV Positivo”.
    Em contato com o meu infantil escrevo a tese. Infantil por ser aquilo que me escapa da ordem e não teve a lógica edípica como paradigma , faz parte da vida do “infant”. E assim voltei-me para coisas supostamente simples, como é o cuidar. Quem nunca foi cuidado? Quem nunca cuidou? O cuidado aqui nos remete ao infantil de todos os adultos. Formulei, então perguntas simples, como só uma criança pode fazer, e reafirmei a convocação do meu infantil. E, para que as respostas fossem acontecendo muitas perplexidades, sem palavras, foram vividas.

    Neste percurso estive em contato com o livro O risco e o Fio, em 2009. E naquela época, ainda como um embrião da tese, que agora estou finalizando apresentei um seminário com o livro. Fiquei intrigada de como sem palavras, falamos; de como podemos ser afetados pelo manejo do que está a nossa volta. E o cuidado exige isto. Um para além das palavras, que nos afeta e que nos torna humanos. Na minha visão a literatura infantil pode nos trazer esta experiência e ousei utilizá-la também como referência na minha tese.

    Aposto na possibilidade de serem inventadas novas maneiras de se trabalhar na área da saúde, e se trabalhar juntos, quando se pretende cuidar do outro. Não há busca pela resposta de um enigma, mas um desejo de formar equipe riscando e arriscando, diante da possibilidade de uma transformação prática dos limites, ampliando os mesmos com efetivos encontros. Cuidar do outro, partindo dessa possibilidade colocaria em dúvida as certezas, mas acho que valeria a pena.

    Com essas ações uma produção híbrida foi sendo constituída nos ires e vires. Há leituras de saberes acadêmicos diversos e de literatura, inclusive literatura infantil. Há campo de pesquisa delimitado. Há um aceite de um Comitê de Ética para entrevistas e observações serem feitas. Há ajuda de um solftware de vanguarda, o NVivo. Parece que há poesia para o que a ciência não explica. E também há marcas e traumas diante de situações que, no momento em que foram vividas, pareciam totalmente caóticas.

    É hora de partir

    Chega de trabalhar por hoje, agora cada um brinca sozinho. Mas como assim? Foi tão divertido trabalhar, como posso parar de trabalhar? Posso sim. Pois agora cada um faz como quiser…
    E assim me despeço de vocês e sigo em frente rabiscando, arriscando, fiando e escrevendo e escrevendo.
    Certamente, esta apresentação traz muitas dúvidas, imprecisões e mesmo sofrimento. Mas, traz também uma possibilidade de criar ou recriar a partir do apreendido, a partir do subjetivo, a partir do encontro de corpos, mesmo quando se vê com o olho-do-visível e não com o olho-retina.
    “ …feito de carne e osso, o intelectual vê-se constantemente na agonística entre a liberdade e o limite, no paradoxal campo onde a criação transgride mas reterritorializa” .

    Assim sigo adiante.

    • Ai que mensagem com cheiro bom de bolo no forno! A gente nunca sabe como o bolo vai sair, mas feito assim com carinho e cuidado, há de ser saboroso. As velas já estão prontas para o parabéns e, quando chegar a hora, o Risco, o Fio e a Tecelã vão cantar juntos comigo, muito honrados e orgulhosos!

  2. Adorei! vou ter que mostrar para os meninos. Sabe que até hoje, de vez em quando eles falam em arriscar e confiar? No outro dia me perguntaram pela resposta da carta, pois nem todos estavam no dia que eu a li. O livro marcou mesmo! Parabéns!

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