no nível pessoal

Existe aqui na Inglaterra um programa de rádio onde os ouvintes ligam para comentar matérias de destaque na impressa. Outro dia, uma dessas matérias era sobre as comemorações da vitória na Segunda Guerra e um veterano da aeronáutica, nos seus noventa e poucos anos, ligou para dizer que era contra a forma como as celebrações se dão, parecendo glorificar a guerra e dando a entender que matar seja um ato heróico. Aí ele contou a experiência dele: durante a guerra, seu avião foi atingido e um dos paraquedas danificado. Ele, aos 19 anos, ofereceu o paraquedas restante ao piloto, de 23 anos, que o recusou. Assim ele foi salvo. Mais para frente, ele foi capturado e colocado num trem junto a um guarda. Três mulheres em luto viajavam perto dele e ele sentiu seus olhares recriminatórios. Após algumas horas, porém, elas pegaram um pedaço de pão e o ofereceram a ele. Mulheres que antes ele tentava matar, agora ofereciam pão a ele. O guarda proibiu, então ele não recebeu o pão, mas ficou com esse gesto, para anos mais tarde concluir que a arma mais poderosa contra o inimigo é o amor, o cuidado com o ser humano.

Dando um pulo para um depoimento sobre um fato recente, vi um vídeo de uma negra, cujo pai é de Gana e a mãe alemã, onde ela fala sobre sua experiência durante a execução de um documentário sobre racismo. A abordagem dela é muito interessante: simplesmente entrar em contato com pessoas de organizações racistas, trazendo questionamentos, mas sem acusações. O que ela coloca é que, de um modo geral, os grupos criam um inimigo comum, mas que esse inimigo é imaginário, mais do que real, pois as pessoas raramente têm contato com o dito inimigo. Assim, quando se confrontaram com ela, uma negra, uma pessoa real de carne e osso, que conversa, que sorri para eles, muitos ficaram desconcertados.

Agora, num pulo ainda maior, um pulo sobre o oceano, queria chegar ao Brasil. Em um outro documentário sobre o Rio que passou por aqui, apareceu de passagem (entre muitas cenas de violência) um trecho de um vídeo que provavelmente circulou na internet, onde uma menina, imagino que convocando à população à consciência, dizia algo como: “vocês que ficam aí com seu futebolzinho, seu carnavalzinho…”.

Não consegui deixar de questionar se essa menina, tão pronta a abrir mão do “futebolzinho” e “carnavalzinho”, estaria também preparada para abrir mão de privilégios que a imagem dela de alguns segundos me fazem acreditar que ela tenha. É claro que isso foi só uma elocubração, mas acho que em época de tantas manifestações coletivas, vale o questionamento sobre o comprometimento pessoal. As manifestações e, mais ainda, o trabalho coletivo, são importantes, mas as reflexões e atitudes começam no nível pessoal.

Um grande perigo do coletivo é justamente a criação de um monstro como inimigo que deve ser atacado indiscriminadamente. Os problemas do nosso país são mesmo de dimensão monstruosa, mas encararmos isso é diferente de simplesmente atribuirmos esse problemas a uma entidade, um monstro externo a nós, o que pode ser paralisante e mesmo cômodo.

Por exemplo, devemos cobrar as responsabilidades dos políticos e governantes, mas é também importante lembrarmos que dentro dos governos há muita gente trabalhando duro, seriamente buscando soluções para nossos problemas. Assim não estagnamos numa atitude derrotista. Ainda, quando afirmamos que “político é tudo ladrão”, não podemos esquecer que políticos não são monstros alienígenas que descem em naves espaciais, mas pessoas nascidas em nossa sociedade.

Qual a nossa parte em formar pessoas melhores? Estamos dando a nossa contribuição ao mundo, dando o melhor de nós, aquilo que temos em nós para oferecer ao outro, à nossa sociedade? Estamos agindo com respeito, atenção, cuidado, nem que seja em pequenos gestos? Como o senhor nos seus 90 anos nos lembrou, nossos gestos podem ter um alcance maior do que imaginamos.

Acredito que o ódio ao Brasil não vá construir uma realidade melhor, mas, quem sabe, o amor vá. Não um amor nacionalista ao país como uma entidade abstrata que precisa ser preservada, mas como um lugar que nos construiu, com uma história, cultura, onde estão pessoas que amamos e muitas que temos que aprender a respeitar. O país como nosso principal espaço de ação. Assim não negamos quem somos, podendo enfrentar o grande desafio de direcionarmos marcas importantes da nossa cultura, como afetividade, jovialidade, espontaneidade e humor, para a construção de uma sociedade mais feliz.

Como a tarefa não é fácil, acho que a festa (futebolzinho, carnavalzinho etc), outra marca forte da nossa cultura, pode ser um momento de recarregarmos as energias positivas. E já que estamos na véspera de uma grande festa, vou torcer para que ela possa ser vivida não como escapismo ou alienação, e também não com derrotismo ou violência, mas com alegria.
E vou torcer pela seleção também!

bandeira2

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s